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1 de setembro de 2011

Licores

Licor de jejum?
Licor de sossego, licor de Amesterdão, licor de vácuo, licor de pim pam pum
Licor de beijo
Dá bebedeira de amor, e vou comprar cerveja para o inter rail.
Caminhos de ferro pela Europa antiga
Quantas vezes nos teremos já cruzado noutras vidas?
Não me olhes assim, não me lembro de ti…
Uma noite, noutro século,
Bebericando licores variados
Num bar acastanhado e esquecido
O tempo em que não havia call centers
E o dono do tasco? A lavar as canecas de chumbo e a vigiar a filha boa
Éramos nós e o jazz, saboreando licor de vulva
Já não sei para onde foi tudo…
Boa tarde, fala o clique
Obrigado por ter atendido
As melhoras do adsl
Estou há mais de 20 minutos…
Aguarde um licor.


R Marcial P

3 de julho de 2011

Devaneios de tarde #2

É sempre bom
A Cameron Diaz não ter medo de mim
E as áleas da nova cidade masturbarem-se de noite
Nas concordâncias da véspera
É bom e é sempre!
As capitulações da nossa estabilidade emocional
Serem azedas ao tacto
Sob o pretexto de sermos amados mais além
De uma e uma só gaivota suprema
Gritando o destino das luas


R Marcial P

Devaneios de tarde #1

Ao fundo da rua onde me passeio
Vejo as costas de uma hiena chapelada
E nada sei sobre ela
Leva para o fim
Soluços nos ombros largos
Rindo apocalipticamente.


R Marcial P

14 de janeiro de 2011

Marés

Uma recém pré nova antiga discussão de dentro
Sobre que peão se há-de mover agora ontem
Neste quadrado de quadrados diagonalizáveis
Nesta hora inclinada da semi claridade nocturna
Não vejo além das escalas de cinzento refractado
Do meu quase processo de escolha reincenerada diariamente
Iço fatigado uma e outra vez as velas gigantes
A todos os entre ventos que ante sopram capazes
Os velhos neo círculos da inacabada dança de fumo
E o meu casco de madeira romba avança espumoso e alegre
Na incógnita maré de prata que se bifurca no desleme
Da minha não intenção de porto, chegada omissa
Andarei eu, ontem sempre amanhã às voltas, nesta perene maçã de água?


R Marcial P

26 de dezembro de 2010

Pionés

Amiga de há tanto tempo.
Sempre que falo contigo estás numa cidade diferente.
Lembro-me de ti na Guarda.
Lembro-me de ti em Coimbra e em Portalegre
Lembro-me de ti na Europa toda.
Agora estás a abastecer em Santiago do Cacém.
Também vais espetar esse pionés no mapa?
Eu tenho estado sempre aqui...
Se riscasse o teu passeio pelo mapa-mundo, fazia um desenho.
Se riscasse o meu, fazia um pequeno borrão até furar o papel.



R Marcial P

24 de novembro de 2010

Um jantar no palco

Estou num jantar no meio de muita gente conhecida, alguns chegam mesmo a ser meus amigos, mas pairo longe, numa zona muito para dentro de mim. Tão interior, que os ruídos dos empregados, talheres, e gargalhadas soltas me chegam coados por um espesso pano de teatro falso.
Eis que chegas lá ao fundo da sala e a minha distracção cola-se imediatamente a ti.
Vejo as curvas do teu corpo sensual deformarem a matéria de objectos e pessoas por quem passas, com uma gravidade excêntrica de várias estrelas juntas, e os meus olhos orbitam-te como dois planetas desencontrados.
Abro a boca e sai-me uma frase de circo, que talvez seja a minha fala, e o teu sorriso de beijo senta-se escandalosamente no lado mais afastado da mesa.
Volto a mim, mal disfarçando-me de actor e sinto humedecer-se qualquer coisa por baixo das órbitas. Limpo teatralmente, com um guardanapo de adereço fictício, o que talvez seja uma lágrima triunfalmente real.

R Marcial P

22 de novembro de 2010

Caçador

O bar é pequenino e escuro, mas tem um wide screen, pode-se fumar lá dentro e, quando lá está a dona, costumam passar pop dos anos 80.
Sempre que lá vou está fechado.
Mesmo quando está aberto, encontra-se fechado.
Costumo aparecer ao início da madrugada e bato com o puxador antigo na porta de madeira que nunca se abre.
Na dúvida se já teria fechado ou se nem sequer abriu, hoje o dono atende e convida-me a entrar.
O dono é sinal de má música, mas compensa com amendoíns e pergunta-me se quero copo.
Passei lá com o propósito de um cigarro e uma conversa leve com os amigos.
Mas hoje a minha atenção foi desviada para um caçador que ali estava magicamente sentado a bebericar uma cerveja clara.
Tinha aquela aura consolada de quem viveu um dia inteiro.
O bigode, a barriga farta e o chapéu de pano banal partilhavam, neste simbólico serão, esse mesmo repouso redondo de uma vida solidificada,
com uma mulher em casa deitando os filhos a horas de amanhã irem à escola aprender quaisquer matérias importantes.
Enquanto o observava, senti pena da minha vida de agitações vãs
Dos meus projectos de correrias em todas as direcções.
De não ter que me deitar a horas para coisa nenhuma.
Cresceu em mim uma extrema inveja de não me poder sentar assim na vida, com um copo de horas livres na mão e um bigode de aço que me lembrasse os traços da personalidade no espelho de todos os serões.
Pena de não ter, nem saber escolher um chapéu.

R Marcial P

18 de outubro de 2010

Potro

Ontem cruzaste-te comigo no Chiado mas não reparaste que eu também me estava a cruzar contigo.
Talvez por ires acompanhada por um desconhecido loiro que galopava bem, deixaste que a tua desatenção exagerasse quando eu esbocei um aceno de mão.
Então passaste por mim como por toda aquela massa anónima de gente ordeira da rua, que sabe tão pouco de ti e que nunca voltaria atrás para um puxão na camisola.
Rapidamente imaginei possibilidades embaraçosas de uma segunda vida de encontro e corri para te apanhar ainda.
Mas tu afastavas-te depressa, num trote de quatro patas loiras, como quem foge exageradamente a um aceno de boca muda numa multidão desarrumada.
Reparei embaraçadamente que a tua vagina estava descoberta ao olhar anónimo de quem adormecidamente a ousasse ver -
Descabimento físico de potro dentro de ti.

R Marcial P

9 de outubro de 2010

Ilíaco percebeu que nunca perdera nada em vida.
A posse é uma ilusão.


 
R Marcial P

4 de setembro de 2010

Cinzeiro

A fragilidade física na alma daquele que ama, ante quem ama.
A desistência com que decai, amando
O desfalecimento de toda a força de braços a que se sujeita, triste e alegre, numa paranóia de felicidades na hipótese, aquele que ama
E a aspereza funda daquele penhasco seu a que atira loucamente
Todo o lixo de carne e chantagem moral.
Lá em baixo, o amado protege-se do cheiro incómodo
Mas não o deita fora por fome no ego
Ou por ter uma alma gigante de pena...

Amo todos aqueles que entregam o seu grande destino à banalidade de uma paixão inteira e desagradável.
Ao vosso masoquismo!
O vosso, é o meu masoquismo multiplicado
É o que sinto por vós, vezes o que sinto dentro, quando sinto que amo extremamente
Esse despojamento irracional do ser-me
Esse choro interno, disfarçado de simpatia e vassalagem no sorriso.

Amo-te toda.
Mas se ousasses responder-me, apagarias tudo o que te tenho dito escondidamente...

É esse sórdido cordão oco de silêncio e indiferença que vai mantendo vivos em cativeiro, todos os amores-refém.
E é o lento entardecer da vida que, como o cigarro de merda, os esgota entre dedos de carne, que vão escrevendo coisas até se esquecerem num cinzeiro, alguns metros dentro do chão

R Marcial P